No `Oásis de Paz', judeus e árabes
ignoram a guerra
Eles tentam provar que em Neve
Shalom é possível aos dois povos conviver em igualdade DEBORAH HORAN
Houston Chronicle
NEVE SHALOM, Israel - Aparentemente todas as coisas existem aos pares
neste povoado de Israel situado a oeste de Jerusalém. Há dois alfabetos -
um árabe e um hebraico - pendurados acima dos quadros negros, na escola
primária. Dois diretores estabelecem o currículo. O próprio povoado, um
oásis, tem dois nomes, e os dois significam "Oásis de Paz". Para os judeus
e árabes israelenses que vivem aqui essa duplicidade é da máxima
importância.
Eles se mudaram para cá no fim da década de 70 e na década de 80, para
provar um ponto de vista corajoso: apesar do conflito árabe-israelense
fora do oásis, seria possível viverem juntos em condições de igualdade e
paz.
Agora, em meio a uma sangrenta insurreição árabe-palestina e à
deterioração das relações entre árabes israelenses e judeus, os moradores
deste povoado idílico descobriram que nem sempre é fácil manter o mundo
exterior à distância. Entretanto, eles continuaram a ser poderosos
símbolos de coexistência.
Quando os árabes do norte de Israel provocaram distúrbios civis, em
outubro, e a polícia matou 13 deles, representantes de muitas das 40
famílias que vivem neste povoado, denominado Neve Shalom em hebraico e
Wahat al-Salam em árabe, deixaram suas diferenças de lado e entraram,
juntos, em veículos utilitários. Foram até o cenário dos choques para
protestar contra o que muitos israelenses consideraram brutalidade da
polícia contra cidadãos árabes do Estado de Israel. Deram telefonemas de
condolências às famílais dos mortos e doaram vacinas contra tétano a um
hospital da Cisjordânia, onde ocorreu grande parte da violência. Também
enviaram alimentos às famílias palestinas que estavam sem trabalhar desde
o início da insurreição.
"Achamos que já é tempo de agir, pois agora há muito
desespero,"declarou Nava Sonnenschein, diretor judeu da Escola para a Paz,
uma instituição do povoado que promove, entre outras coisas, workshops
para jovens árabes israelenses e judeus. Contudo, as 20 famílias judias e
20 famílias árabes que vivem no local descobriram que, por causa da
violência, muita coisa deixou de ser dita.
Havia, por exemplo, a questão explosiva que consiste em saber se os
jovens judeus de Neve Shalom devem servir no Exército israelense. Se o
fizessem, talvez fossem lançados contra os palestinos amotinados da
Cisjordânia e da Faixa de Gaza, que poderiam ser parentes das famílias
árabes israelenses do povoado. Além disso, havia divergências sobre como a
rebelião começou e quem eram os responsáveis por sua intensificação.
"Decidimos não discutir os detalhes pequenos e difíceis", explicou
Sonnenschein.
As crianças judias e árabes do povoado e das áreas próximas
continuaram a freqüentar a escola primária. No recreio, pulavam
amarelinha, brincavam no playground e jogavam futebol juntas. O conselho
do povoado, formado por árabes e judeus, continuou a se reunir e a fazer
seu trabalho. Mas os moradores do povoado, situado no alto de uma colina,
ao lado do mosteiro de frades trapistas, descobriram que a violência criou
um período de provações para os defensores da coexistência pacífica.
A Escola para a Paz suspendeu temporariamente as sessões de "diálogo"
que vinha promovendo entre árabes e judeus, porque as questões tornaram-se
muito difíceis de serem discutidas.
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